O Hyundai i30
avaliado recentemente não estava licenciado, não tinha placa, só nota fiscal. A sensação ao dirigi-lo por São Paulo foi inesquecível. Saber que não poderia ser
tungado pela Prefeitura através de alguma câmera de fiscalização de trânsito me deu um enorme e indescritível prazer, transportando-me para uma época em que nada disso existia (e que não faz tanto tempo assim).
Mas não pense o leitor – ou alguma “otoridade” que eventualmente ler este post – que aproveitei para barbarizar, pelo contrário. Sempre dirigi da maneira civilizada, respeitando regras e preferências e, de uns bons anos para cá, sempre praticando a cortesia. Não seria o fato de o carro não ter placas que eu iria mudar meu comportamento. Mas que foi um período de condução (dez dias) de absoluta paz e tranqüilidade, sem nenhuma dúvida.
Numa avenida de limite 70 km/h, por exemplo, precisei sair de um “caixote”, aquela situação em que dois ou três carros à frente (um deles na faixa mais à esquerda, é de lei…) estão rodando abaixo do limite sem motivo, não oferecem possibilidade de ultrapassar e o jeito é usar potência para “limpar” tráfego à frente. Fazer isso sem a preocupação de ser flagrado por estar 10 ou 15 km/h acima do limite foi pura alegria. Ou num trecho qualquer em descida não precisar ficar freando só para “respeitar o limite de velocidade”. Enfim, assim era o dirigir dos anos 1960 a 1990, livre e despreocupado com o “excesso de velocidade”. Tempo em que pardal era apenas passarinho – daí a foto de um na abertura deste post.
Hoje impera o terrorismo da autoridade de trânsito. Terrorismo para cima do motorista normal e cumpridor das regras de circulação e sinalização de limite de velocidade. Outro dia, com um Tiguan da frota de imprensa da VW, fuil multado na av. dos Bandeirantes, na capital paulista. Foi num trecho em descida e cometi o “crime” de andar a 68 km/h quando o limite era 60 km/h. Com a margem de erro legal do equipamento é de 7 km/h até 100 km/h, 68 menos 7 dá 1, 61 km/h, a velocidiade “considerada”, portanto acima do limite. Foi no feriado de Finados, 2 de novembro, avenida literalmente à moscas.
Nessa mesma via, desde quando vim morar em São Paulo, em agosto de 1978, a abril de 2011 – 32 anos! – o limite era 70 km/h. Esse tempo é mais que suficiente para ficar gravado no subconsciente de qualquer um o cenário das vias utilizadas habitualmente. No meu subconsciente, naquela avenida o limite é 70 km/h, portanto eu e dezenas de milhares de motoristas
seríamos presas fáceis da safadeza da Companhia de Engenharia de Tráfego – uma “companhia” que ofende a honrosa profissão de engenheiro pelo erros e absurdos que comete.
Tanto é assim que de abril de 2011, quando esses incompetentes do terceiro tipo – incompentente, incompetente sem iniciativa e incompetente com iniciativa, o terceiro e pior deles – baixaram o limite de várias avenidas de São Paulo de 70 para 60 km/h, a dezembro do ano passado, as multas por excesso de velocidade cresceram nada menos que 77% em relação ao mesmo período de 2010. Estava na cara que isso aconteceria, e os incompetentes Tipo 3 certamente sabiam disso. Só pode ter sido intencional, para engordar o caixa de Prefeitura paulistana (arrecadação com multas figura no orçamento da administração municipal, caso você não saiba).
É mais que evidente o dolo da medida de reduzir velocidade, pois o que se espera, dada a evolução dos automóveis, é que ela aumente, jamais diminua. Permanecer igual já seria um erro.
Outro prazer foi saber que eu poderia rodar sem levar em conta o dia da semana, sem ter de me submeter ao vergonhoso rodízio de veículos pelo final da placa – caso único no mundo, para reduzir congestionamentos – outra grande tungada de prefeitos paulistanos sobre os motoristas cidadãos, do seu diabólico e vivaldino inventor Celso Pitta, começando em 1997, a Gilberto Kassab, passando por Marta Suplicy e José Serra. Já vamos para quinze anos nessa vergonha, em que motoristas de fora, obrigados a atentar unicamente para o Código de Trânsito Brasileiro, são multados por desconhecerem a tungada informal e indevidamente sinalizada.
Alguns anos atrás, num lançamento, alguns carros não tinham placas e fomos de São Paulo a Bertiioga, no litorial. Outro prazer, ter podido andar a 110 km/h na descida da Imigrantes, a velocidade de projeto da rodovia amplamente comentada durante sua construção, e não a risíveis e enervantes 80 km/h. O mais intrigante é que quando só havia um trecho de serra nessa rodovia e nos finais de semana era usado para descer, o limite de velocidade era 100 km/h. Detalhe: ambos os trechos são de mesma declividade, 6% e o novo trecho tem menos curvas. Em novembro próximo completar-se-ão dez anos sob essa outra vergonha, desta vez estadual.
Mas essas duas alegrias duraram pouco. Logo voltaria o martírio de dirigir carros emplacados, na mira do terrorismo oficial.
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