Os ex-resignados.
Escrito por Luciano Pires em Qui, 26 de Agosto de 2010 12:09
Assistindo à ginástica verbal dos presidenciáveis tentando justificar certas alianças inexplicáveis, lembrei-me de Mário Benedetti, um dos maiores escritores e poetas do Uruguai. Em sua novela A Trégua, lançada em 1960, encontrei um trecho que me chamou a atenção:
“Ele me perguntou se eu achava que tudo estava melhor ou pior do que cinco anos atrás, quando ele foi embora. `Pior`, responderam minhas células por unanimidade. Mas depois tive que explicar. Ufa, que tarefa.
Porque, na verdade, a corrupção sempre existiu, o acordo também, as negociatas, idem. O que está pior, então? Depois de muito espremer o cérebro, cheguei à conclusão de que o que está pior é a resignação. Os rebeldes passaram a semi-rebeldes, os semi-rebeldes a resignados. (…)`Não se pode fazer nada`, as pessoas dizem. Antes só quem queria conseguir algo ilícito é que subornava. Agora quem quer conseguir algo lícito também suborna. E isso significa relaxo total.”
Benedetti dizia que “o que está pior é a resignação” em 1960, quando havia uma clara divisão entre esquerda e direita, a guerra fria assombrava a todos, Fidel acabara de derrubar Fulgêncio Batista em Cuba e a juventude estava tomada pelo ideal romântico da revolução que viraria o mundo de cabeça para baixo nos vinte anos seguintes!
Tudo que não havia era resignação, pô!
Se Benedetti achava que as pessoas estavam resignadas naquela época, o que acharia hoje, quando o mundo virou um balcão de troca? Quando vale tudo para obter ou manter o poder? Quando quem se rebela é atacado pelas patrulhas do politicamente correto? Quando “é feio” dizer na cara de um mentiroso que ele está mentindo? Quando quem reclama e grita é considerado mal educado?
Repito: se Benedetti achava que estávamos resignados em 1960, acharia o que hoje? Que estamos resignadíssimos? Resignadassos? Resignados ao cubo? Resignadalhos? Hiper-Mega-Resignados? Resignadásticos?
Pois eu acho que o adjetivo é “frouxos” mesmo.
Mas o texto de Benedetti continua. E é aí que o bicho pega:
“Mas a resignação não é toda a verdade. No princípio foi a resignação; depois, o abandono do escrúpulo; mais tarde a co-participação. Foi um ex-resignado quem pronunciou a famosa frase: `Se os de cima levam o deles, eu também levo o meu`. Naturalmente, o ex-resignado tem uma desculpa para sua desonestidade: é a única forma de os outros não tirarem vantagem dele. Ele diz que se viu obrigado a entrar no jogo, porque caso contrário seu dinheiro valeria cada vez menos e seriam cada vez mais numerosos os caminhos corretos que se fechariam para ele. Continua mantendo um ódio vingativo e latente contra aqueles pioneiros que o obrigaram a seguir esse caminho. Talvez seja, no final das contas, o mais hipócrita, já que não faz nada para se safar. Talvez seja também o mais ladrão, porque sabe perfeitamente que ninguém morre de honestidade…”
Alguma familiaridade com o que você anda assistindo? Pois é… Mas como é que se explica essa situação? Fácil. É só recorrer a outro escritor famoso, o romancista britânico William Somerset Maugham que um dia escreveu a incômoda verdade:
“A coisa mais útil sobre um princípio é que ele pode ser sacrificado pela conveniência.”
E desce o pano.
Luciano Pires



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